#Artigo: O Dia Internacional da Mulher e o Cinema: coincidência ou necessidade de solução?

By | 8 de março de 2016

por Kíria Silva Orlandi
Delegada Titular da Delegacia de Atendimento à Mulher de Diamantina/MG

Filme "Uma jovem no rio: o preço do Perdão"

Filme “Uma jovem no rio: o preço do Perdão”

Neste dia 08 de março será celebrado o Dia Internacional da Mulher, data invocada desde o início do século XX como marco de luta pela igualdade de direitos, remetendo a um fato histórico de opressão, a morte de mais de 130 mulheres em uma fábrica em Nova York.

No dia 28 de fevereiro de 2016, por outro lado, foi celebrada, em Los Angeles, a 88.ª cerimônia do Oscar, na qual foram premiadas duas produções cuja repercussão é de impacto na já citada luta pela igualdade de direitos.

Como vencedor do Oscar de melhor curta metragem, foi premiada a produção – em tradução livre – Uma jovem no rio: o preço do Perdão. Narrando a história de uma paquistanesa sobrevivente de uma tentativa de feminicídio praticada pelo próprio pai, a obra expõe a luta de Saba Qaiser, que foi amarrada, colocada dentro de uma sacola e jogada em um rio.

A motivação da conduta foi o fato de a protagonista ter se casado com um homem de sua escolha, e o agressor não foi punido por se tratar de um crime de honra, possível quando um membro da família tem a moral violada.

Mais de cem anos após a morte de mulheres que lutavam por melhores condições de trabalho, mais de trinta anos após a Convenção da ONU sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher, é vergonhoso assistir à defesa, com o aval estatal, de uma suposta honra masculina violada quando uma mulher manifesta vontade própria.

Outra produção cujas consequências merecem análise é o feliz vencedor do grande prêmio da noite, o de Melhor Filme, tratando-se de Spotlight: Segredos revelados. Ao expor um esquema meticuloso existente dentro da igreja católica para acobertamento de casos de pedofilia e proteção dos infratores por parte de superiores hierárquicos, a obra demonstra a fragilidade da suposta proteção à dignidade sexual. Em outro momento da premiação, vítimas de abusos participaram de uma apresentação musical, manifestando sua indignação e eterna luta.

Não obstante as vítimas de abusos religiosos sejam, em sua maior parte, meninos, expor o tema da violação sexual como algo que precisa ser repensado e tratado com maior explicitação e seriedade é importante num contexto de proteção de direitos femininos, pois as mulheres e meninas são as vítimas mais comuns no dia-a-dia desse crime bárbaro.

No Brasil, com vistas a diminuir tal sofrimento, ainda que tardiamente, foram editados, em 2013, o Decreto Federal 7.958 e, no âmbito do estado de Minas Gerais, o Decreto Estadual 46.242 estabelecendo diretrizes para o atendimento à vítima de violência sexual pelos profissionais de segurança pública e pelos agentes públicos de saúde. Entretanto, no que se refere à oitiva única profissional e especializada, para evitar revitimização, não houve avanços práticos significativos.

Dessa forma, feito o paralelo, verifica-se que, tendo sido necessária a exposição pela arte de casos gravíssimos de violação da dignidade feminina, percebe-se que a luta pela igualdade e pela proteção estatal não cessa e nem pode cessar no dia 08 de Março, mas perdurar e merecer esforços mais eficazes e duradouros.

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