#SaúdeEntrevista: Socióloga compara as políticas públicas de saúde mental entre Brasil e Itália

By | 28 de março de 2017
Por Sílvia Amâncio (ASCOM/ESP-MG)

17546925_919680918135128_8894465858616998372_o

“A força do manicômio na sociedade é tão forte como a resistência coletiva dos movimentos sociais”. A frase está entre as afirmações feitas pela socióloga italiana e presidente da Fundação Franca e Franco Basaglia, Maria Grazia Giannichedda, durante roda de conversa das Oficinas de Formação de Trabalhadores da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), ação educacional da Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG) em parceria com a coordenação de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), em dezembro de 2016.

Após a aula em Belo Horizonte, ela conversou com a Assessoria de Comunicação Social da ESP-MG e respondeu algumas questões sobre as diferenças das políticas de saúde públicas voltadas para a saúde mental no Brasil e na Itália. Confira, abaixo:

1) Como era o quadro na Itália antes da Reforma Psiquiátrica?

Em 1750 foi aberto o primeiro manicômio na Itália. Historicamente, os países da Europa tinham a postura de que era necessário “limpar” as cidades de pessoas indesejáveis, aquelas que não se adaptavam à vida em sociedade, daí o surgimento de manicômios com a prática do isolamento e segregação.

2) Como foi a Reforma Psiquiátrica na Itália?

Assim como na França, houve um intenso movimento pelo fechamento dos manicômios, com a proposta de que esses seriam substituídos por outros serviços. Era uma utopia em comum, já que os serviços prestados eram de má qualidade e com altos gastos públicos. Acompanhei todo esse processo da reforma, desde a sua formulação, como uma das principais assessoras de Franco e Franca Basaglia, precursores do movimento da reforma psiquiátrica italiana, conhecido como Psiquiatria Democrática.

3) Quais foram os resultados imediatos da Reforma?

Com a reforma, houve fechamento de 60% dos leitos psiquiátricos. Temos dados de que em 1971 a Itália tinha em torno de 50 milhões de habitantes, sendo que cerca de 100.000 estavam em manicômios. Isso há mais de 40 anos, mas a reforma na Itália ainda enfrenta muitos desafios.

4) E no Brasil?

A Reforma Psiquiátrica brasileira seguiu a experiência italiana, tendo passado por importantes momentos, uma relação política de críticas em relação aos manicômios. Assim como a Itália, o Brasil tentou também romper essa situação apostando na ressocialização, na autonomia social, mas sabemos que não é simples.

5) Os manicômios acabaram?

Ainda temos alguns abertos na Itália e eles podem voltar e ainda piores. Mesmo após 40 anos de reforma, o governo italiano ainda é tímido e não aprendeu com as lições, dispensa o trabalho humanizado e ainda visa o lucro. Na Itália os investimentos em saúde mental são de cerca de 3 a 4%, muito pouco se comparamos com os 12% investidos na mesma área pela Finlândia por exemplo.

6) Os movimentos ainda resistem?

Enfrentamos 250 anos de manicômios, por isso temos a prática da resistência coletiva do campo da saúde mental. Ainda temos que mudar a mentalidade de muitos profissionais, alguns apostam nesses avanços, em especial no trabalho com os profissionais mais jovens. A luta de instituições e movimentos sociais pela saúde mental teve grande destaque na reforma. Mas não se trata de uma questão de lei, e sim de uma mudança organizacional e cultural nas políticas públicas e nas bases. Entendemos que essas pessoas têm direito à justiça, direitos iguais e provamos que há alternativas ao invés de apenas manicômios.

7) Por que há essa resistência por parte de alguns médicos?

Ainda persiste a cultura de uma sociedade da “medicina mental” na prática dos médicos psiquiatras, é um desafio convencê-los a mudar e eles insistem em hospitais. Vale lembrar que o conhecimento deles foi aprendido dentro desses manicômios.

8) E a religião como influi? Sendo a Itália um berço cristão?

Os manicômios têm uma influência forte da Igreja Católica, esses hospitais psiquiátricos administrados pela Cúria mantêm convênios públicos e são os mais difíceis de serem fechados. Mas resistimos.

  • Clique aqui e veja mais fotos da roda de conversa com a socióloga Maria Grazia Giannichedda.

Deixe uma resposta