#SUSParaTodAs: Maria Turci faz discurso sobre políticas de saúde pública para as mulheres

By | 13 de julho de 2017
Maria Turci, Sub Secretária de Políticas e Ações de Saúde da SES-MG. Créditos: Marcus Ferreira

A subsecretária de Políticas e Ações de Saúde da SES-MG, Maria Turci, faz discurso sobre a importância de se propor políticas de saúde pública para as mulheres. Foto: Marcus Ferreira.

 

De 10 a 12 de julho foi realizado no Minascentro, em Belo Horizonte, 1ª Conferência Estadual de Saúde de Minas Gerais. O evento foi marcado por intensos momentos de discussão, reflexão e encaminhamentos para a Conferência Nacional de Saúde das Mulheres, que acontece em agosto, visando propor uma política de saúde pública para as mulheres que as atenda de forma integral e igualitária a diversidade do público feminino.

#SUSParaTodAs Por um Sistema Único de Saúde que exista e resista! Click To Tweet

Na noite da abertura oficial, no primeiro dia da Conferência, a subsecretária de Políticas e Ações de Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), Maria Turci, fez um discurso reflexivo e instigante às mulheres presentes na Conferência. Abaixo, confira o discurso na íntegra:

Sinto imenso orgulho hoje de fazer uso da palavra nessa abertura porque esse direito me foi dado por ser mulher. Construímos essa Conferência de Saúde da Mulher juntas. Foram dezenas de etapas municipais e um intenso engajamento do controle Social em todo o Estado.

Há 31 anos o nosso país não realiza uma Conferência de Saúde das Mulheres. As discussões que faremos aqui nesses dias são de extrema importância. Infelizmente a visão do sistema de saúde sobre a mulher ainda tem se limitado ao aparelho reprodutivo: útero, ovários, mama.

Mesmo com muito acúmulo teórico as Políticas de Saúde ainda não conseguiram deixar de focalizar a gestação e o parto e a prevenção e o tratamento dos cânceres. E ainda assim, de forma precária.

Os nossos índices são lamentáveis. Nosso país apresenta taxa de cesariana incompatíveis com as recomendações clínicas. A redução da morte materna é lenta, e mesmo com tecnologias efetivas para o rastreamento do câncer de colo e de mama não conseguimos dar acesso às mulheres aos exames e aos tratamentos em tempo oportuno.

Ao mesmo tempo precisamos enfrentar a pressão da indústria de medicamentos e equipamentos médicos que quer impor às mulheres ações e procedimentos muitas vezes desnecessários visando o lucro.

O sistema de saúde nos vê como cuidadora de nossos filhos e familiares, legitimando essa atribuição que a sociedade nos coloca e naturalizando a sobrecarga sobre nós.

Estudos mostram que as mulheres conseguem superar melhor as barreiras do sistema de saúde e por isso estão mais aptas a utilizá-lo. Mas, recentemente o gestor nacional do SUS traduziu essa realidade sugerindo que os homens utilizam menos o Sistema de Saúde porque trabalham mais, desconsiderando a dupla jornada que leva a mulher a trabalhar 5 horas semanais que os homens, se somadas as funções remuneradas e tarefas domésticas.

Apesar de representarmos a maioria dos profissionais de saúde, ocupamos espaços de menor visibilidade e menor remuneração. São  incipientes as políticas de incentivo à conciliação entre trabalho, vida pessoal e vida familiar que tem a ver com a disponibilidade de creches, com a melhoria dos transporte, com jornada flexíveis, além de um compartilhamento maior dos afazeres domésticos.

Somos sub-representadas nos espaços de poder. Dessa forma, homens criam leis que regem nossos corpos, regulam a saúde sexual e reprodutiva, muitas vezes em nome de crenças que não professamos.

Uma mulher hoje que decida usar um método contraceptivo definitivo no SUS precisa de autorização do seu companheiro. Mulheres que tem direito ao aborto legal tem dificuldades de acesso, isso quando não enfrentam recusa e discriminação por parte dos profissionais de saúde. E nos casos ilegais de aborto as mulheres encontram sequelas e morte.

Apesar desse cenário devastador para as mulheres avança no senado o projeto de Emenda Constitucional visando impossibilitar todo tipo de aborto.

O tema da conferência é a Saúde Integral com equidade, porque precisamos de um Sistema de Saúde que compreenda a mulher em sua complexidade social e histórica. Estamos aqui porque queremos um Sistema de Saúde que reconheça nossos direitos e caminhe conosco lado a lado na luta pelos direitos que ainda não conquistamos.

Estamos aqui por um Sistema de Saúde que acolha a mulher trabalhadora e não imponha tantas normas e regras que dificultam o acesso.

Por um Sistema de Saúde que lute contra o racismo que naturaliza a dor das mulheres negras.

Por um sistema de Saúde que reconheça os saberes das mulheres indígenas, do campo, das florestas e das águas. suas práticas integram um conhecimento ancestral e harmonia com a natureza, reduzindo a medicalização imposta pelo modelo biomédico.

Por um Sistema de Saúde que reconheça e atenda as necessidas das mulheres com deficiência, que retire da inivisibilidade as mulheres em situação e compreenda seu modo de vida.

Por um Sistema de Saúde que respeite a orientação sexual das mulheres lésbicas e bissexuais, sem julgamentos morais que as afastam da atenção á saúde.

Por um Sistema que respeite o nome social das mulheres trans e ofereça os cuidados que hoje lhes é negado.

Por um Sistema de Saúde que acolha as mulheres com transtornos mentais ou em uso de álcool e outras drogas que promovam seu cuidado e não a separe de seus filhos suprimindo seu direito à maternidade, transformando em mulheres órfãs de seus filhos.

Por um Sistema de Saúde que assista à saúde das mulheres provadas de liberdade, reconhecendo suas necessidades e condições de vida.

por um Sistema de Saúde que garanta o direito ao parto natural e não imponha às mulheres procedimentos desnecessários e atrogênicos sem evidências de benefícios e que não perpetuem a violência obstétrica.

Por um Sistema de Saúde que ofereça cuidados às mulheres idosas e se oponha à cultura machista que ridiculariza e despreza o envelhecimento da mulher.

Por um Sistema de Saúde que se posicione contra a imposição de um padrão de beleza inatingível gerador de sofrimento à mulher.

Por um Sistema de Saúde que se posicione contra a chaga da violência contra a mulher, que não silencie sobre a dor e a morte das mulheres vítimas do sentimento de posse dos seus companheiros.

Que esse Sistema seja um porto seguro para mulheres vítimas de estupro e assédio sexual e não fonte de mais sofrimento.

Por um Sistema Público que exista e resista. A defesa do Sistema Único terá que vir pela nossa voz mulheres! Pela voz e mãos de mulheres em todo o país se dará a luta contra as vis ameaças ao Sistema Único de Saúde. Por nós e pela geração que virá!”

No vídeo abaixo, confira algumas partes deste discurso:

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