#Ciência: Pesquisadora mostra como fazer da ciência uma escolha de vida

By | 4 de abril de 2018
Por Vívian Teixeira / FUNED
Crédito: Jota Santos / FUNED.

Crédito: Jota Santos / FUNED.

Alguns pesquisadores levam a trajetória na ciência com um nível de engajamento tão intenso que a atividade ultrapassa as lides profissionais e chega à militância. Essa parece ser a opção da Profa. Rejâne Maria Lira da Silva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que fez a palestra de abertura do XI Prêmio Carlos Ribeiro Diniz, promovido pela Fundação Ezequiel Dias, na manhã desta terça-feira (03/04).

Rejane apresenta os animais peçonhentos – seu objeto de pesquisa ao longo da vida – como quem apresenta um capítulo importante de um contexto muito maior. Seus parceiros de pesquisa, professores, colaboradores, orientandos e alunos são personagens que fizeram e ainda fazem parte da sua história, muitos como amigos.

Além de pesquisadora, a cientista trabalha com voluntariado na ONU e participa de movimentos de Mulheres na Ciência. Antes de iniciar sua fala, a professora apresentou um vídeo que mostra o impacto dos acidentes com animais peçonhentos no mundo, com destaque para os países mais pobres.

Ao recontar seus passos ao público – formado por boa parte de estudantes de Ensino Médio e de Graduação – a professora mostrou que começar cedo na ciência pode ser instigante, mas também inclui muitos desafios. “Sempre tive pessoas com quem contar e uma delas foi o professor Carlos Ribeiro Diniz, que tive o prazer de conhecer e que me deu uma carta de recomendação para que eu pudesse estudar no Museu Britânico de História Natural”, conta.

Em muitas viagens pelo mundo para estudar os animais, mas também as populações atingidas pelo ofidismo, Rejâne encontrou populações padecendo pela falta de acesso a tratamentos, a equipes de saúde, a infraestrutura adequada, mas, sobretudo, pela falta de informação. Ela acompanhou equipes na República do Benim, na África Ocidental; na Papua-Nova Guiné, na Oceania; na Índia e em muitos outros cantos do Brasil e do mundo. Em cada lugar, uma particularidade, um cenário e um contexto social e político diferente capaz de tornar o enfrentamento ao problema dos acidentes com animais peçonhentos mais ou menos dramático.

“Quando eu presenciei a morte de um jovem de 15 anos por ele não ter dinheiro para pagar o soro, eu desabei. O pior é que eu também não tinha o dinheiro para pagar o soro”, lembra Rejane. Ela acrescenta que o Brasil é o único país no mundo a ter quatro laboratórios de produção de soros, mas que nem por isso as pessoas deixam de morrer pelo problema, principalmente a população rural e os mais invisíveis para a sociedade.

A pesquisadora conta que outro drama atinge também as terras brasileiras: o erro na administração dos soros. Muitos lugares têm o soro, o material é gratuito, mas há erro na hora de ministrá-lo ao paciente, o que causa impactos à saúde das pessoas e dispêndio aos cofres públicos. Rejane também falou de experiências vividas na Costa Rica e na Austrália que podem sinalizar possíveis caminhos para o Brasil e outras nações.

Entre histórias, relatos e vivências, a cientista defende algumas ações que poderiam tornar o trabalho com animais peçonhentos mais seguro. Umas delas seria ter representação diplomática na Organização Mundial de Saúde, outra está relacionada ao investimento em soros polivalentes e uma terceira seria angariar apoio político para que essas mudanças pudessem ser implementadas.

“Temos um componente cultural muito forte no Brasil que nos ensinou a temer os animais peçonhentos. Fica muito difícil fazer um trabalho de preservação quando fomos ensinados a odiar”, ressalta, lembrando ainda que, “é preciso que os jovens vejam seus problemas de pesquisa também como um problema social”.

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