#SaúdeEntrevista: Pesquisadora da Fiocruz foi docente convidada na Especialização em Saúde Pública da ESP-MG

By | 21 de novembro de 2018

A pesquisadora conversou com a Ascom da ESP-MG sobre Ecologia dos Saberes, formação em Saúde Pública e SUS. Créditos: Ayrá Sol Soares – ASCOM/ESP-MG

Por Ayrá Sol Soares – ASCOM/ESP-MG

Nesta semana, o Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola de Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG) recebeu, como docente convidada, a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz do Ceará (Fiocruz/Ceará), Vanira Matos Pessoa. Ela é Doutora em Saúde Coletiva e ministrou para os alunos da Escola as disciplinas “Ecologia de Saberes na Produção de Conhecimento em Saúde” e “Trabalho e Ambiente”. Confira nesta entrevista nossa conversa com ela sobre a importância dos sanitaristas no Sistema Único de Saúde (SUS).

Qual o tema trabalhado na Especialização em Saúde Pública?

Estamos trabalhando a Ecologia dos Saberes, um assunto bem novo no campo da saúde. É um tema das ciências sociais, cunhado pelo professor português, Boaventura de Sousa Santo. Um paradigma, uma forma de ver a ciência e as diversas formas de conhecimento.

O que ele propõe?

Que consigamos dialogar com os diversos conhecimentos que existem na sociedade para construir novos conhecimentos, sem negar os conhecimentos que nós temos, seja o histórico, filosófico, religioso, científico, os saberes populares, o senso comum. Sem negá-los, mas muito mais dialogar em pé de igualdade com esses conhecimentos e produzir novos saberes, por isso o nome Ecologia dos Saberes.

Quais os principais pontos da Ecologia dos Saberes?

No campo da saúde ela abre muitas possibilidades porque nós que trabalhamos com o saber muito técnico e científico, temos muita dificuldade em trazer as outras dimensões do saber para as nossas práticas. Às vezes nós não compreendemos algumas práticas e acabamos tomando atitudes autoritárias. Para dentro da saúde traz uma reflexão interessante, para quem está no serviço de saúde e que o tempo todo precisa repensar suas práticas, ele traz essa possibilidade de você estar refletindo, se transformando e transformando seu trabalho.

Como esse conhecimento pode ser aplicado pelos profissionais do SUS em seus territórios?

A Ecologia dos Saberes é algo inovador e que requer de nós uma vigilância da forma como nós pensamos e como fazemos. Ela traz um desafio grande de nos questionarmos, se o que eu estou fazendo é o mais adequado para esse território ou se estou fazendo o que eu sei e não o que é mais necessário. É difícil aprender outra coisa que seja mais necessário.

E nesse cenário o profissional…

É uma possibilidade para o profissional de saúde que está no processo de formação realmente olhar para o território, para a singularidade e ver o que ele está fazendo lá, se ele está apenas replicando um modelo que ele ouviu falar em algum lugar e aprendeu que é o mais adequando, ou se ele está construindo novas formas de cuidado e saúde junto com aquela população.

É um tipo de construção coletiva?

Traz muito essa ideia de fazer com as pessoas, de construir com elas o seu cuidado em saúde, construir com elas as novas formas de se auto cuidar, criar alternativas juntos. Então, a incorporação da dimensão do território é fundamental para a Ecologia de Saberes, ela dialoga com o global, mas sem nunca desmerecer o local. É a partir das experiências locais que você consegue fazer também implicações nas dimensões globais. As interações acontecem em todas as dimensões, não só no âmbito local ou no global, é reconhecer que essas interações se dão nesses diferentes cenários com distintos atores, mas que todos eles têm potencialidade de mudar, de transformar e de criar. É essa visão que é uma visão humana, que é muito importante para o serviço de saúde.

Qual a importância da formação de sanitaristas?

No momento atual em que nós vivemos no Brasil é mais do que nunca importante formar sanitaristas. Nós no Brasil sabemos pouco sobre saúde pública, e quanto mais sanitaristas, pessoas comprometidas e formadas em saúde pública, mais nós teremos a possibilidade de criar uma compreensão da saúde pública que faça com que a saúde seja a primeira questão fundamental da vida humana.

E esses sanitaristas no SUS?

Traz a possibilidade grande de dialogarmos ao mesmo tempo com diversos profissionais que estão em setores bastante distintos do SUS. Aqui em sala de aula temos pessoas que estão na vigilância, na atenção, na educação, na assistência, seja no âmbito secundário ou primário. Então essa riqueza que possibilita a troca de conhecimento e de reconhecer o lugar do outro dentro do sistema de saúde. Ele propicia muito e quando você está só trabalhando não se tem essa vivência, você tem a vivência do seu serviço, e esses momentos além do conteúdo teórico propiciam essa troca de experiência que cada um trás a partir do seu lugar. Que nós tenhamos vida longa das especializações em saúde pública.

Qual o grande desafio para os trabalhadores do SUS nesse grande cenário de desmonte?

Um dos grandes desafios é de nós nos compreendermos enquanto agentes do estado, agentes formuladores e executores de uma política pública a importância de nos organizarmos na defesa do SUS. Nós ainda vemos muitas contradições nessa compreensão de que fazemos políticas sociais, de que fazemos políticas públicas e de que estamos construindo um estado para uma sociedade quando estamos atuando em saúde pública. Nós precisamos nos organizar do ponto de visto do trabalho, porque nós temos questões de precarização difíceis de serem enfrentadas dentro do SUS, temos questões de formação e nós temos demandas gigantescas do ponto de vista dos problemas sociais, que repercutem na saúde. Muitos problemas que extrapolam às vezes o próprio fazer do profissional da saúde.

A formação auxilia nessa organização?

Nós temos ainda uma dificuldade grande de nos organizarmos e termos pautas comuns dos trabalhadores da saúde pública, que são desde organizações e corporações que são mais fortes, como os médicos, e você têm, por exemplo, os agentes comunitários, os agentes de combate a endemias, mas que ainda dialogam pouco entre si e entre as categorias muito menos. Ainda há muita dificuldade de construir pautas únicas de reivindicação, de construção de uma organização de trabalhadores de saúde e isso nós precisamos inclusive estar trabalhando na formação dos trabalhadores, que é a formação política de você se organizar enquanto trabalhador, para lutar, ter direitos e deveres.

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