#SaúdeEntrevista: Psicóloga do Hospital João XXIII fala sobre suicídio, laços sociais e rede de apoio

By | 11 de dezembro de 2018
Por Priscilla Fujiwara

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Durante a palestra “Suicídio e Violência em Saúde do Trabalhador’ que aconteceu na Regional de Saúde de Belo Horizonte, nesta última segunda-feira (10/12), o #BlogDaSaúdeMG conversou com Luciana Santos*, psicóloga do Hospital de Pronto-Socorro do Hospital João XXIII sobre suicídio, laços sociais e a importância do apoio às pessoas que estão passando por este sofrimento. Confira a entrevista:

1) Do ponto de vista da psicologia, como você conceitua o suicídio?

Como um ato de sofrimento, que sendo ouvido, pode ser cuidado e, com a ajuda de outras pessoas, de profissionais e com o fortalecimento de laços sociais, pode ser superado. Eu defino o suicídio, a partir do meu trabalho no João XXIII, com um ato de dor, como um ato de desespero.

2) Qual é a relação entre o suicídio e os laços sociais?

O que eu pesquisei muito, desde Durkheim, um sociólogo francês que estudou a questão do suicídio como uma questão social, o suicídio é multicausal e as questões sociais atravessam o suicídio o tempo inteiro. No mundo em que estamos, em que se fragilizam os laços sociais ao fragilizar o relacionamento do humano, ao potencializar muito a relação do consumismo e do imediatismo, da competitividade, do dinheiro, acaba desfavorecendo as relações humanas, deixando o ser humano muito desamparado. Neste desamparo, ele pode recorrer mais ao suicídio.

3) Como em nossas relações sociais, em nosso dia-a-dia, o cidadão comum pode tentar prevenir ou ajudar alguém no seu entorno que possa tentar suicídio?

A primeira coisa, quando potencializamos os nossos relacionamentos, seja em nossa casa, no cuidado com os nossos filhos, seja com os nossos amigos, quando passamos a ouvir de verdade as pessoas, a ter um tempo para as pessoas, uma dedicação maior, podemos inclusive reconhecer sintomas ou sinais de alerta que dizem que esta pessoa não está bem.

Frases do tipo “eu não estou aguentando mais, está muito difícil, estou muito triste”. Às vezes a pessoa muda totalmente o comportamento, fica mais irritada, não quer sair, deixa de trabalhar, apresenta dificuldade ao fazer as suas atividades da vida diária. Se a pessoa falar, em algum momento, que tem vontade de morrer, deixe essa pessoa falar, escute e ofereça ajuda.

Você me perguntou como o cidadão comum pode ajudar? Escutando, não se afastando dessas pessoas que apresentam esses sintomas que acabei de falar, de tristeza, irritabilidade, isolamento social. Não se afastando dessas pessoas e escutando a dor que elas têm, orientando essa pessoa a procurar ajuda no serviço de saúde, nos hospitais, principalmente na atenção primária ou no CERSAMs (Centro de Referência em Saúde Mental) ou no Centro de Valorização à Vida (CVV). Mas, o mais importante, além de orientar essa pessoa, às vezes ir com ela e não desampará-la.

4) E qual orientação que você daria para a pessoa que tem uma idealização suicida ou que já tentou?

Que essa pessoa procure ajuda. E aí, eu vou usar uma frase de uma paciente minha: que essa pessoa espera o amanhã e lute pelo amanhã. Busque ajuda de pessoas para superar e suportar estes processos difíceis pelos quais elas estão passando. Há sempre saída, mas, às vezes, a saída não é fácil mesmo, por isso precisamos de ajuda. Às vezes, é uma saída que irá demandar um tempo maior, um investimento muito grande, tanto da pessoa como das pessoas ao redor. Eu oriento que ela busque ajuda e acredite na possibilidade de superação dessa dor que está vivendo.

5) Onde buscar e ofertar ajuda?

– Profissional da saúde mental;

– Centros de Saúde;

– Em Belo Horizonte: Centro de Referência em Saúde Mental (CERSAMs) e Hospitais de Urgência Psiquiátrica conforme critérios da rede de saúde mental;

– Em outros locais do país: Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) com o mesmo modelo de funcionamento dos CERSAMs.

– Centro de Valorização da Vida (CVV): atendimento gratuito às pessoas que querem conversar, sob total sigilo por telefone (188), e-mail, chat e Skype 24 horas, para todo o país. Saiba mais em: https://www.cvv.org.br

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