Dia Nacional de Prevenção e Combate à Surdez

By | 9 de novembro de 2020

O Dia Nacional de Prevenção e Combate à Surdez (10 de novembro) foi criado pela Portaria de Consolidação MS nº 1/2.017, art. 527 como símbolo de luta pela educação, conscientização e prevenção sobre os problemas relacionados à surdez e à saúde auditiva. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 10 milhões de brasileiros possuem algum grau de deficiência auditiva, o que equivale a 5% da população brasileira. Desse número, cerca de 2,7 milhões apresentam surdez severa, com predomínio de 54% de homens e 46% de mulheres.

A surdez é uma condição de saúde “invisível”, ela não tem cara. A sociedade não percebe o surdo ou deficiente auditivo da mesma forma que percebe uma outra condição limitante, como por exemplo os indivíduos cadeirantes. Além disso, os surdos também apresentam algumas particularidades quanto a inclusão social. Por isso, a conscientização sobre esta condição merece a atenção de todos, não somente neste dia (10 de novembro), mas cotidianamente. 

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ENTENDENDO A SURDEZ

A audição caracteriza-se como um dos cinco sentidos da percepção humana sobre o ambiente. O ato de ouvir ou escutar é percebido inicialmente pelo nosso ouvido e então transmitido ao nosso cérebro, mas esse processo é bem mais complexo do que parece. Sendo assim, para facilitar a compreensão sobre a surdez, primeiramente vamos entender como o som chega ao nosso cérebro. Para isso, podemos dividir o sistema auditivo em três partes:

  • Ouvido externo: pavilhão auricular e o canal auditivo;
  • Ouvido médio: membrana timpânica e pelos ossículos (martelo, bigorna e estribo);
  • Ouvido interno: cóclea e canais semicirculares.

Inicialmente, o pavilhão auricular (basicamente, a orelha que vemos externamente) é responsável por captar os sons do ambiente e, então, são conduzidos pelo canal auditivo até chegar à membrana timpânica. Ao receber a onda sonora, essa membrana transmite a vibração sonora aos ossículos do ouvido interno até atingir a cóclea, que por sua vez transforma as vibrações mecânicas em impulsos elétricos que chegam em locais específicos do cérebro permitindo a nossa percepção do som.

Ao entender essa trajetória até a percepção do som, agora você consegue imaginar que existem diversas causas possíveis para o desenvolvimento da surdez, não é mesmo? Qualquer comprometimento de uma ou mais das partes do ouvido externo, médio e interno pode levar ao comprometimento parcial ou total da audição.

Na surdez de condução, ocorre bloqueio da passagem do som da orelha externa até a interna

Na surdez neurossensorial, há lesão neurossensorial entre a cóclea e o cérebro.

Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta de um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz. Sendo assim, deve-se realizar um exame chamado audiometria tanto para o diagnóstico de surdez quanto para a classificação do grau de comprometimento da audição. Veja a classificação abaixo:

CLASSIFICAÇÃO QUANTO AO GRAU DE PERDA AUDITIVA

AUDIÇÃO

PERDA (dB)

CARACTERÍSTICA

NORMAL

0 a 25 dB

Audição normal

SURDEZ LEVE

26 a 40 dB

Dificuldade para ouvir conversas distantes

SURDEZ MODERADA

41 a 70 dB

Dificuldade para ouvir conversas próximas

SURDEZ SEVERA

71 a 90 dB

Capacidade auditiva apenas para sons altos 

SURDEZ PROFUNDA

> 91 dB

Percepção dos sons altos como vibrações, somente

SURDEZ ADQUIRIDA

O tipo de surdez adquirida mais comum é a chamada surdez central, que ocorre como um processo natural do corpo humano. Assim como outras partes do nosso corpo que sofrem com o processo de envelhecimento (visão, coração, coluna, pele, rins, pulmão, cabelo etc), com a audição não é diferente: os desgastes vão se acumulando ao longo do tempo.

Outras causas menos comuns estão relacionadas às doenças infecciosas (meningite, sarampo, caxumba), infecções crônicas, acúmulo de líquido, uso de certos medicamentos (medicações ototóxicas e outros), lesão direta na cabeça ou na orelha, ruído excessivo (ocupacional), exposição recreativa a sons altos (uso de dispositivos pessoais por períodos prolongados e participação regular em shows, bares, eventos) e por acúmulo de cera ou corpos estranhos que bloqueiam o canal auditivo.

Entre os fatores de risco para o desenvolvimento da surdez adquirida, os principais são: exposição a ruído intenso, tabagismo, etilismo, sedentarismo, diabetes, dislipidemias, obesidade e hipotireoidismo.

O aparecimento súbito de perda auditiva (surdez súbita) é definida como uma perda auditiva sensorioneural de mais de 50 dB em três frequências contíguas, dentro de um período de 72 horas. 

SURDEZ CONGÊNITA

A incidência de perda auditiva na população infantil é de 1 a 6 para cada 1.000 nascidos vivos e de 1 a 4 para cada 100 recém-nascidos atendidos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal. A detecção precoce da perda auditiva congênita nos primeiros 3 meses de vida com encaminhamento antes dos 6 meses permite um correto desenvolvimento neuronal, principalmente das estruturas ligadas à linguagem, rendimento escolar, autoestima e adaptação psicossocial.

A surdez de origem genética corresponde em até 50% dos casos de surdez congênita. No entanto, existem algumas doenças infecciosas que acometem o bebê durante a gestação e que sabidamente podem provocar a surdez congênita, como por exemplo a rubéola, toxoplasmose, sífilis, herpes, citomegalovírus e HIV. Assim, o acompanhamento pré-natal é o fator fundamental na prevenção tanto da surdez congênita como de diversas outras doenças que trazem danos tanto ao bebê quanto às gestantes.

Você conhece o teste da orelhinha?

O Teste da Orelhinha (Triagem Auditiva Neonatal) é o exame feito a partir de 48 horas de vida, que identifica problemas auditivos congênitos nos recém-nascidos. O exame leva de 5 a 10 minutos para ser concluído, sendo ele seguro e indolor. Na suspeita de alguma anormalidade, deve-se encaminhar para uma avaliação de especialistas.

O Teste da Orelhinha é assegurado por lei e todos os recém-nascidos devem fazer para testar a audição.

 

A LINGUAGEM BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS)

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De acordo com o decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, Art. 2º, considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras, considerada uma língua oficial do Brasil desde 24 de abril de 2002, através da lei nº 10.436.

Quando falamos de inclusão social dos surdos e deficientes auditivos não devemos nos limitar apenas à inserção da língua de sinais, apesar de sua extrema importância. A inclusão no ensino e no mercado de trabalho ainda estão muito longe do ideal e muitos dos deficientes auditivos ainda encontram dificuldades, muitas vezes limitantes, como na recusa pela matrícula em escolas pelo impossibilidade técnica em receber tais alunos. No mercado de trabalho, a inclusão também é um desafio, pois boa parte das empresas ainda apresentam um despreparo nessa questão.

ACESSO AO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS)

A A Unidade Básica de Saúde (UBS) é a principal porta de entrada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Estima-se que cerca de 80% das demandas de saúde da população sejam resolvidos no atendimento primário, sem que haja necessidade de encaminhamento a outros serviços, como especialistas, emergências e hospitais. Na atenção primária são oferecidos ao público os seguintes serviços de saúde: fazer curativos, fazer inalações, tomar vacinas, coletar exames laboratoriais, tratamento odontológico, receber medicação básica e encaminhamentos aos atendimentos especializados.

Quando falamos sobre o acesso dos deficientes auditivos, principalmente os surdos,  à atenção primária, devemos ter em mente de que a procura por estes pacientes é como qualquer outra pessoa sem a surdez. A demanda pelos cuidados de saúde, dos básicos até os de mais alta complexidade, por parte desta população, enfrentam grande dificuldade quando solicitam esses serviços. O número de centros de saúde que contam com um profissional que compreenda a linguagem dos sinais (libras) é reduzido e, muitas vezes, inibem a procura ativa de muitas pessoas surdas ou com deficiência auditiva.

A percepção sobre as dificuldades que os surdos enfrentam ao procurar ajuda médica não é algo complexo. Ao procurar um atendimento, a primeira coisa que fazemos é contar ao profissional de saúde o que nos incomoda e, no decorrer da consulta, outras perguntas são feitas até a realização do exame físico. Boa parte dos problemas de saúde são resolvidos ou, no mínimo, são acompanhados a partir de uma boa anamnese (entrevista realizada pelo profissional de saúde). A comunicação é essencial para a obtenção do cuidado integral do paciente, portanto quando ocorre uma falha nesse relação médico-paciente, há também o comprometimento do cuidado oferecido ao paciente surdo.

Autor: Vitor Yukio Ninomiya

Referências:

Portaria de Consolidação nº 1, de 28 de setembro de 2017. Consolidação das normas sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde, a organização e o funcionamento do Sistema Único de Saúde.

World Health Organization. Health topics. Deafness and hearing loss.

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

 

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