DIABETES: Quase sempre é uma questão de escolha

By | 13 de novembro de 2020

Autores: Pedro Otávio Oliveira Santos e Vitor Yukio Ninomiya

Dia Mundial do Diabetes (14 de Novembro)

Dentre os mais de 13 milhões de pessoas com diabetes no Brasil, provavelmente você deve conhecer alguém com esta doença. O assunto é sobre uma das comorbidades mais comuns no mundo, acometendo cerca de 422 milhões de pessoas, com a maioria vivendo em países de baixa e média renda, e 1,6 milhão de mortes são diretamente atribuídas ao diabetes a cada ano. E não para por aí, esse número tem se tornado cada vez maior! 

A boa notícia sobre essa doença é que grande parte dos casos são evitáveis. Ainda que o arsenal terapêutico tenha se tornado cada vez melhor no decorrer dos anos, a prevenção ainda continua sendo a melhor opção.

Glicosímetro indicando glicemia elevada


O QUE É DIABETES?

O diabetes é uma doença crônica do metabolismo, caracterizada por níveis elevados de glicose no sangue (ou açúcar no sangue). Nessa doença, podem ocorrer diversos defeitos metabólicos relacionados à um hormônio produzido por células (células beta) do pâncreas: a insulina, responsável por tornar possível a utilização da glicose pelas nossas células. 

A insulina é o hormônio responsável por transportar a glicose presente no sangue para dentro das células. Na falta ou reduzida ação desse hormônio, a glicose permanece na circulação sanguínea, resultando em um aumento na concentração da glicose no sangue (hiperglicemia).

Importante ressaltar que o diabetes mellitus (DM) não se trata de uma única doença, mas de um grupo diverso de distúrbios metabólicos que apresentam em comum a hiperglicemia, como consequência dos defeitos na ação da insulina, na liberação de insulina ou em ambas.

É verdade que “Todas as pessoas que tem o diabetes precisam utilizar insulina” ?

Continue lendo para descobrir!


DIABETES MELLITUS TIPO 1 (DM1)

Aqui o diabetes não é uma questão de escolha, pois se trata de uma doença autoimune, presente em 5% a 10% dos casos de diabetes mellitus, em que o resultado é a destruição das células pancreáticas responsáveis pela produção de insulina (células beta do pâncreas ou betapancreáticas). Essa taxa de destruição das células beta é variável, mas, em geral, ela ocorre de maneira rápida e pode ser detectadas principalmente na infância ou adolescência, fases em que geralmente são dados os diagnósticos por meio dos sintomas da hiperglicemia e por exames laboratoriais específicos.

Para os portadores de diabetes tipo 1, o controle da doença é feito por meio da aplicação de insulina, uma vez que estes pacientes não conseguem produzir a insulina própria. Por se tratar de uma doença autoimune adquirida desde o nascimento, não existe cura para esta condição, mas diversas insulinas estão disponíveis no mercado. Além do uso da insulina, também estão indicados o controle alimentar e atividades físicas para ajudar a controlar o nível de glicose no sangue.

De modo geral, o diabetes mellitus tipo 1 pode ser classificado em três principais tipos:

DM1A: ocorre destruição autoimune das células beta

DM1b: idiopática, causa desconhecida

LADA (Diabetes Autoimune Latente do Adulto): ocorre destruição autoimune das células beta, mas de maneira lenta


DIABETES MELLITUS TIPO 2 (DM2)

O diabetes mellitus tipo 2 corresponde a cerca de 90% a 95% dos casos e caracteriza-se por defeitos na ação e secreção de insulina para o controle da glicemia, podendo haver o predomínio de um deles. Mas, aqui, o ponto mais importante da doença: esse é o tipo de diabetes que pode ser evitado e, não por acaso essa condição quase sempre está relacionada a pessoas com sobrepeso ou obesidade após os 40 anos. O estado hiperglicêmico cronicamente exposto ao metabolismo pode acabar gerando uma espécie de “exaustão metabólica”, em que o corpo altera a sensibilidade celular à insulina.

Por se tratar de uma doença desenvolvida ao longo de anos de exposição ao estado hiperglicêmico, ela sempre parte de um estado completamente assintomático e, com o tempo, alguns sinais podem acender o alerta, como: poliúria (urinar em grande quantidade, chegando a mais de 3 litros diariamente), polidipsia (aumento da sensação de sede), noctúria (aumento no número de vezes que se urina à noite), borramento visual e perda de peso. Sendo assim, fique atento a estes sinais.

Antes de perceber os sintomas citados acima, você pode ficar atento aos fatores de risco para o DM2. O principal deles é a presença dessa doença em um familiar próximo (atenção especial aos de primeiro grau), pois há uma forte correlação genética. Outros fatores são: idade acima de 45 anos, obesidade, dislipidemia (colesterol e triglicerídeos elevados no sangue), história de doença aterosclerótica, hipertensão arterial, história de intolerância à glicose, sedentarismo, uso crônico de corticoides e síndrome dos ovários policísticos.

Você já ouviu falar no Diabetes Latente Autoimune do Adulto (LADA)?

Devido ao processo autoimune lentificado, muitas vezes os pacientes com LADA eram diagnosticados com DM2 e então tratados de maneira incorreta (não uso de insulina).

Até hoje isso é comum, pois os principais diagnósticos tendem ao DM1 e DM2 clássicos.

Os outros tipos de DM acabam sendo diagnosticados após uma investigação da baixa resposta terapêutica inicial.


DIABETES MELLITUS GESTACIONAL (DMG)

O diabetes mellitus gestacional pode ocorrer em até 14% de todas as gestações, dependendo da população estudada, e relaciona-se com o aumento de morbidade e mortalidade perinatais. O DMG é definido como qualquer intolerância à glicose, de magnitude variável, com início ou diagnóstico durante a gestação.

Durante a gravidez ocorrem diversas modificações no organismo materno para permitir o desenvolvimento adequado do bebê. Nesse processo, uma das mudanças necessárias é o aumento na produção de insulina, pois ocorre um maior consumo desse hormônio tanto pelo aumento da captação de glicose quanto pela sua utilização por outros mecanismos de resistência insulínica gestacional. Quando não há esse aumento insulínico pela demanda gestacional, ocorre uma hiperglicemia sustentada caracterizando o diabetes gestacional.

Os fatores de risco para desenvolver a DMG são: antecedentes de óbito fetal/neonatal, diabetes gestacional em gestação prévia, obesidade ou ganho excessivo de peso durante a gestação (IMC > 25 kg/m2), história familiar de diabetes em parentes de primeiro grau, polidrâmnio, macrossomia fetal (bebês maiores de 4 kg), hipertensão ou pré-eclâmpsia na gravidez em vigência, duas ou mais gestações prévias.

A gestação é uma fase repleta de mudanças e, portanto, as consultas pré-natais são fundamentais não somente para o rastreio de DMG, mas de muitas outras condições que podem comprometer a saúde materna e fetal. Por isso, não esqueça:

Gestantes devem comparecer a, no mínimo, 6 consultas pré-natais.

(uma no primeiro trimestre, duas no segundo trimestre e três no terceiro trimestre)


COMO É FEITO O TRATAMENTO?

No caso do DM1, o tratamento é feito exclusivamente com o uso de insulina, pois nesse caso o organismo é incapaz de produzir insulina. Existem diversos tipos de insulina disponíveis no mercado e podem apresentar desde uma ação ultrarrápida (utilizada imediatamente antes das refeições) até aquelas de uso único durante o dia. Para mais informações sobre as insulinas, clique no link da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

No DM2, o arsenal terapêutico é ainda maior e muitas dessas terapias apresentam recomendações bem específicas de acordo com o perfil de cada paciente. Aqui, estão disponíveis medicamentos capazes de aumentar a sensibilidade à insulina, outros que estimulam o pâncreas a liberar insulina diretamente ou indiretamente, que mimetizam hormônios que participam do metabolismo da glicose e até mesmo alguns que estimulam a eliminação de glicose em excesso do organismo.

Apesar de o tratamento farmacológico ser fundamental, principalmente nos casos de DM1, as medidas não farmacológicas são essenciais nesse processo. As mudanças no estilo de vida, como ter um hábito alimentar saudável e a prática de exercícios físicos devem, sempre que possível, andar junto às terapias farmacológicas.


POR QUE O CONTROLE DA GLICEMIA É TÃO IMPORTANTE?

A exposição crônica do estado hiperglicêmico ao organismo pode levar a diversas consequências que comprometem a saúde. Além de aumentar significativamente a chance de desenvolver hipertensão arterial e dislipidemia (elevação de colesterol e triglicerídeos), o diabetes mellitus pode causar lesões diretas em diversos órgãos do corpo. 

Um dos órgãos mais afetados são os rins, podendo ocorrer a nefropatia diabética. Os altos níveis de açúcar sobrecarregam a capacidade de filtração do sangue e, com o tempo, levam à formação de lesões que podem resultar em perda de proteína e sangue pela urina e levar a sintomas como inchaço no corpo, principalmente nas pernas. Além disso, ocorre também o agravamento da hipertensão arterial.

Outra consequência é a retinopatia diabética, em que ocorre danos diretos aos vasos sanguíneos da retina dos olhos. Assim, há perda progressiva da visão, podendo levar a perda completa da visão.

A chamada neuropatia diabética é definida como a perda gradual da sensibilidade de diversas partes do corpo. Em quadros iniciais, pode ocorrer a perda da sensibilidade das extremidades (pés e mãos) o que muitas vezes é percebido pelo surgimento de feridas nesses locais, podendo complicar a perda completa da sensibilidade ou até mesmo levar à amputação do membro. Outros exemplos de neuropatia diabética são a gastroparesia diabética (ocorre alteração do funcionamento do estômago, geralmente lentificando o esvaziamento gástrico), vasculopatia diabética, entre outros.

Mas calma, não acaba por aí. Pessoas com diabetes podem apresentar muitos outros comprometimentos funcionais diretamente ou indiretamente, mas sempre sendo uma comorbidade que dificulta o tratamento de diversas outras doenças.

Você sabe por que os diabéticos fazer parte do grupo de risco da covid-19? Descubra aqui.


COMO PREVENIR O DIABETES?

Quando o assunto é a prevenção, o foco acaba sendo o DM2. A adoção de medidas preventivas é a principal indicação na redução dessa comorbidade mundial altamente prevalente. Apesar de não ser novidade à muita gente, vale a pena destacar quais são essas medidas:

  • Alimentação balanceada, sem excessos de carboidratos (doces e massas, por exemplo);
  • Fazer exercícios físicos regularmente (de 3 a 5 vezes por semana, durante 30 minutos cada);

SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

A Unidade Básica de Saúde (UBS) é a principal porta de entrada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Estima-se que cerca de 80% das demandas de saúde da população sejam resolvidos no atendimento primário, sem que haja necessidade de encaminhamento a outros serviços, como especialistas, emergências e hospitais. Na atenção primária são oferecidos ao público os seguintes serviços de saúde: fazer curativos, fazer inalações, tomar vacinas, coletar exames laboratoriais, tratamento odontológico, receber medicação básica e encaminhamentos aos atendimentos especializados.

Quando o assunto é o diabetes mellitus, temos que ter em mente que o paciente muito raramente aparecerá com queixas diretamente relacionadas à essa doença. Assim, o diagnóstico é dado, muitas vezes, por meio de um rastreio de pessoas que levantem a suspeita médica e, por meio da confirmação de exames laboratoriais. Ao obter o diagnóstico precoce, inicia-se o acompanhamento do paciente com a indicação de alterações de hábitos de vida (alimentação e exercícios físicos) ou o uso de medicamentos, dependendo de cada situação.

A suspeita médica de que o paciente possa apresentar diabetes mellitus ocorre principalmente pelo relato do paciente quanto aos seus hábitos de vida (alimentação, sedentarismo) e pela presença de outras comorbidades associadas (obesidade, hipertensão arterial).

Saiba mais sobre todo o tratamento oferecido pelo SUS procurando uma Unidade Básica de Saúde.

Após a leitura, você deve ter percebido que o acompanhamento desta doença pode variar e muito, não é mesmo? Sabendo disso, é essencial seguir as recomendações médicas tanto em relação as medidas preventivas quanto às terapêuticas. Além disso, a associação de medidas não farmacológicas às medicamentosas (orais e injetáveis) dependem principalmente da disciplina e do comprometimento do paciente com sua própria saúde.

Referências:

  • Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), São Paulo (SP), Brasil.
  • American Diabetes Association. 2. Classification and Diagnosis of Diabetes: Standards of Medical Care in Diabetes-2020. Diabetes Care 2020; 43:S14.

Deixe uma resposta