Dia Mundial da Tuberculose: saiba mais sobre a doença e a relação com diagnóstico de covid-19

By | 24 de março de 2021

Em 24 de março, ocorre o Dia Mundial da Tuberculose. Doença grave, que no mundo está entre as 10 maiores causas de morte e a principal causa de morte em pacientes com HIV, infectando 10 milhões de pessoas por ano, com 4 mil mortes ao dia.

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Doença de notificação compulsória do Ministério da Saúde, acomete mais pessoas do sexo masculino, adultos jovens e países de baixa renda. Em 2019, no Brasil, foram notificados mais de 70 mil casos e 4.500 mortes, ou seja, a cada 100 mil pessoas, 35 adoeceram com tuberculose.

Dr. João Ildeu Braga JuniorNeste contexto, veja a entrevista com João Ildeu Braga Junior. Médico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1980, concursado pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) como médico de assistência ao paciente com Tuberculose desde 1985, atualmente lotado na vigilância epidemiológica de Tuberculose da Superintendência Regional de Saúde de Belo Horizonte, João Ildeu atuou 29 anos como médico exclusivo assistencial ao paciente com tuberculose.

Informações sobre a doença em Minas Gerais, vacina, tratamento e a relação entre tuberculose e a dificuldade no diagnóstico de covid-19 são alguns dos temas abordados.

Qual a situação da tuberculose atualmente em Minas Gerais?
Em 2020 foram notificados mais de 4 mil casos de Tuberculose em Minas Gerais, mais precisamente 3.940, e 48,5% dos casos foram notificados por unidades de atenção secundária (Centro de Especialidades) e terciárias (UPAs e Hospitais), sendo que os casos da doença deveriam ser identificados pelas unidades básicas municipais (Atenção Primária) por meio dos sintomáticos respiratórios. A cada 100 mil mineiros, 18 adoecem com tuberculose, e 10% dos pacientes com TB são coinfectados pelo HIV.

Há vacina para tuberculose?

A vacina contra tuberculose chama-se BCG e é aplicada no recém-nascido. Sua função é evitar as formas graves da doença na infância. Não há indicação de dose de reforço nem o uso na população adulta.

Existe um público mais vulnerável?
Sim. A população mais vulnerável à infecção são aqueles em situação de rua com 56 vezes mais risco de adoecer, privados de liberdade com 35 vezes; HIV (25 vezes mais risco); indígenas (3 vezes mais risco); portadores de doença crônica, especialmente diabetes, etilistas e imunodeprimidos.

Quais os principais sintomas?

Os principais sintomas são febre, tosse, emagrecimento e sudorese noturna. A doença só é transmitida por tosse e espirro de pacientes com tuberculose pulmonar, não havendo necessidade de separação de objetos de uso pessoal, como talheres, copos, roupas de cama, entre outros objetos. A alimentação deve ser normal, não havendo restrição alimentar. É importante manter ambientes arejados e ventilados.

Como é feito o tratamento?
O tratamento é com comprimidos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todas as unidades assistenciais de saúde, com duração média de 6 meses, não disponibilizado em farmácias/drogarias ou outras unidades da rede privada. Após 15 dias de uso regular da medicação, não há mais risco de transmissão.

A medicação é fornecida pelo Ministério da Saúde para descentralizar aos municípios, pela Secretaria de Estado da Saúde. Deve-se procurar o tratamento em qualquer unidade de saúde pública, que oferecem o tratamento básico disponível.

Qual a efetividade do tratamento?

O tratamento é efetivo quando uso é regular, sem interrupção, e não apresenta resistência a nenhuma das 4 drogas utilizadas. Se apresentar resistência a qualquer uma delas, é prescrito um tratamento especial por médicas das unidades secundária e terciária. O tratamento não é esterilizante, ou seja, o indivíduo pode apresentar uma reinfecção, por depender de resposta imunológica, que é individual.

Quais os riscos de abandonar o tratamento?
As metas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) são de identificação de 70% dos casos de tuberculose, 85% de cura e menos de 5% de abandono, sendo que pelo menos 70% dos contatos dos casos positivos sejam examinados. Por ser a principal causa de morte em HIV, é definido que se ofereça a testagem para HIV em 100% dos pacientes com tuberculose.Com o abandono do tratamento, esta transmissão se perpetua. Cada paciente com tuberculose pulmonar, infecta outras 10-15 pessoas de seu convívio, sendo que destas, em torno de 10% desenvolvem a doença.

A tuberculose dificulta o diagnóstico de covid-19?
Sim. Os sintomas podem ser os mesmos (febre e tosse) com o período diferente. Para suspeita de tuberculose, os sintomas devem estar presentes há mais de 3 semanas, exceto para população privada de liberdade e população em situação de rua, que pelo risco maior de adoecimento, a presença destes sintomas independe do tempo. Para casos de covid-19, os sintomas estão presentes até 7 dias, em média. Os médicos devem sempre pensar nas duas doenças e fazer o diagnóstico diferencial para ambas.
Com a pandemia de covid-19, muitos pacientes estão abandonado o tratamento por receio de infectar-se com o vírus nas unidades e não buscam o medicamento para seguimento do tratamento.

É fundamental que se faça busca ativa dos pacientes faltosos.

A covid-19 é um dificultador para tratamento da tuberculose?

Não para o tratamento, a dificuldade está em sair para consultar e buscar medicamento em unidades assistenciais que atendem covid.

Qual a importância da comunicação para informar sobre a tuberculose?
É preciso mais campanhas de conscientização da população sobre os sintomas da doença e importância do tratamento. Infelizmente é uma doença negligenciada, em que as pessoas se sentem estigmatizadas. O Brasil ocupa a 20ª posição no mundo em incidência da doença, com melhora dos indicadores nos últimos anos.

Qual mensagem passaria para os profissionais de saúde?
É importante ressaltar a necessidade de busca ativa de pacientes faltosos, avaliar os contatos dos casos positivos e identificar os sintomáticos respiratórios. Não há falta de exames para diagnóstico nem medicação para tratamento. Recentemente foi publicada nova versão do Manual de Normas para Tuberculose, que foi disponibilizado para todos os municípios, assim como as notas técnicas de orientação aos profissionais de saúde.

Qual mensagem passaria para a população?
Ninguém está livre de adoecer com tuberculose. Não depende de nível socioeconômico ou cultura e é preciso persistência no tratamento mesmo após melhora dos sintomas. Você não está curado antes de completar 6 meses de tratamento.

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