Doença de Chagas: uma epidemia silenciosa

By | 14 de abril de 2021

Autor: Vitor Yukio Ninomiya

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Após 112 anos desde o primeiro diagnóstico da doença de Chagas em humanos, no dia 14 de Abril de 2021 celebramos o segundo ano do Dia Mundial da Doença de Chagas. Considerada uma doença tropical negligenciada no mundo, essa data traz muito mais que apenas o alerta à sociedade sobre a doença de Chagas, mas também coloca em evidência mundial a importância do reforço às medidas de prevenção e volta os olhares da saúde e dos governos para as populações rurais e vulneráveis caracterizadas pela pobreza e exclusão social.

Endêmica em 21 países das Américas, com destaque ao Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia e México, a doença de Chagas já atinge mais de 7 milhões de pessoas no mundo, com cerca de 30 mil novos casos por ano. No Brasil, a doença é a quarta causa de morte entre as doenças infecto-parasitárias, o que reforça a necessidade de se manter informado sobre o assunto.

Uma doença endêmica é aquela com grande frequência de casos em determinada região.


A DOENÇA DE CHAGAS

Descoberta em 1909 na pequena cidade Lassance (Minas Gerais) pelo médico sanitarista mineiro Carlos Ribeiro Justiniano Chagas (1879-1934), até hoje a Doença de Chagas continua fazendo parte do grupo das doenças negligenciadas e mantém sua forte relação com a desigualdade socioeconômica, sobretudo em relação às populações rurais.

Assim como descrito na época, a transmissão foi associada a um inseto presente em algumas regiões rurais, como o norte de Minas e Sul da Bahia, conhecido como “barbeiro”. Esse inseto, quando em seu hábitat natural, costuma se abrigar em locais como troncos de árvores, tocas de animais, ninhos abandonados, entre outros locais. Quando presentes em ambientes habitados pelo homem, costumam se esconder em telhas e fendas de paredes nas chamadas “casas de pau-a-pique”. Além disso, dado o seu hábito noturno e por se alimentar de sangue, frequentemente picam o homem em áreas expostas, como rosto, pescoço e braços.

O inseto transmissor da doença pode ser conhecido popularmente como: “barbeiro” (mais comum), “chupão”, “procotó” ou “bicudo”. 

Os sinais e sintomas da doença podem variar de acordo com a forma de infecção e  fase da doença em que a pessoa se encontra (aguda ou crônica). Contudo, muitos  pacientes não apresentam quaisquer sintomas (assintomáticos) e muitas vezes só descobrem após 20 a 30 anos do momento da infecção da doença, em um exame de rotina ou suspeita clínica e epidemiológica. A doença apresenta período de incubação variável relacionada a forma de infecção, quando a transmissão ocorre através da picada do barbeiro, o período médio de incubação é de 4 a 15 dias. A duração média da  fase aguda é de 8 a 12 semanas. O indivíduo na fase crônica, se não tratado apropriadamente, pode permanecer infectado durante toda a vida.

O local em que houve a picada do “barbeiro”, seguido pelo contato com as fezes contaminadas com parasitos, costuma apresentar uma reação inflamatória com um inchaço nodular.

Durante a fase aguda sintomática, pode haver sintomas muito semelhantes a um quadro de síndrome gripal: febre alta, dor de cabeça, calafrios, fadiga, irritabilidade, mal-estar, dor muscular, alterações de apetite, entre outros.

Em sua fase crônica sintomática pode haver comprometimento gastrointestinal (soluços, dificuldade para engolir, dor abdominal , regurgitação, constipação, desnutrição), neurológico (convulsões, meningite, encefalite) e, mais frequentemente, cardíacos (aumento cardíaco, insuficiência cardíaca, formação de trombos, morte súbita).


COMO OCORRE A TRANSMISSÃO DA DOENÇA?

A doença tem como causa a infecção causada pelo protozoário Trypanossoma cruzi (tripanossomíase), que pode ocorrer das seguintes formas:

  • Vetorial: contato com as fezes do inseto barbeiro, contaminadas com o protozoário;
  • Vertical: passagem de parasitos de mulheres infectadas para seus bebês, durante a gravidez ou o parto;
  • Amamentação: mulheres na fase aguda da doença de Chagas podem transmitir o protozoário aos seus filhos através do leite materno.
  • Transfusão de sangue ou transplante de órgãos de doadores infectados a receptores sadios;
  • Acidental: contato da pele ferida ou de mucosas com material contaminado durante manipulação em laboratório ou na manipulação de caça.
  • Oral: ingestão de alimentos contaminados com os parasitos;

Diferentemente das outras doenças que envolvem os insetos para a ocorrência da transmissão, a doença de Chagas não é transmitida pela picada do barbeiro, mas pelo contato das fezes contaminadas com o protozoário com o sangue ou mucosas (olhos e cavidade oral).


QUAIS SÃO AS MEDIDAS DE PREVENÇÃO DA DOENÇA?

Agora que você já conhece as formas de transmissão, fica mais fácil de entender as formas de prevenção, pois elas estão fortemente relacionadas, sendo elas:

  • Evitar a presença do barbeiro dentro das residências: telas e mosquiteiros nas portas e janelas; manter os quintais limpos retirando entulhos que podem servir de esconderijos para o vetor, manter galinheiros e abrigos de animais distantes da casa, uso de inseticidas residuais (exige equipe técnica especializada);
  • Medidas de proteção individual (repelentes, roupas de mangas longas, etc) durante a realização de atividades noturnas;
  • Prevenção da transmissão oral: ações de vigilância sanitária e inspeção em todas as etapas da cadeia de produção de alimentos suscetíveis à contaminação;
  • Cuidados técnicos: regulação da doação de sangue, transplante de órgãos e cuidados durante a manipulação de material contaminado.

SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

A Unidade Básica de Saúde (UBS) é a principal porta de entrada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Estima-se que cerca de 80% das demandas de saúde da população sejam resolvidos no atendimento primário, sem que haja necessidade de encaminhamento a outros serviços, como especialistas, emergências e hospitais. Na atenção primária são oferecidos ao público os seguintes serviços de saúde: fazer curativos, fazer inalações, tomar vacinas, coletar exames laboratoriais, tratamento odontológico, receber medicação básica e encaminhamentos aos atendimentos especializados.

A doença de Chagas é descrita como uma epidemiologia silenciosa e, portanto, depende da participação ativa dos sistemas de saúde. Apesar de o SUS fornecer gratuitamente todo o diagnóstico e tratamento da doença ao paciente, vale lembrar que trata-se de uma doença que exige a atenção de muitos fatores envolvidos e que, portanto, pode ser falho em alguns de seus pontos. Por isso, sempre que for viajar um local verifique se a região é endêmica para a doença e siga as recomendações preventivas. Além disso, caso perceba algum sinal ou sintoma suspeito, procure um centro de saúde mais próximo para que o diagnóstico seja feito precocemente e, assim, você possa se beneficiar do tratamento. Apesar de haver tratamento para a doença, ela deve ser feita precocemente, pois seus danos aos diversos órgãos do corpo são irreversíveis.

 

Referências:

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