10/5: Dia Mundial do Lúpus

By | 10 de maio de 2021

O dia 10 de maio é conhecido como o Dia Mundial do Lúpus – doença autoimune que, por motivos que não se sabe ao certo, leva o sistema imunológico a atacar partes do próprio organismo, causando a inflamação de alguns órgãos e até sua disfunção.

O objetivo da data é chamar a atenção para o impacto que o Lúpus Eritematoso Sistêmico, como a doença também é conhecida, tem sobre as pessoas, enfocando a necessidade de melhorar os serviços de saúde; aumentar a pesquisa sobre suas causas e sua cura; diagnosticar e tratar precocemente a doença; melhorar os dados epidemiológicos em nível global e obter mais recursos para reduzir o sofrimento causado pela doença.

O médico reumatologista Boris Cruz explica que, no caso do lúpus, os órgãos mais acometidos são a pele, com manchas caracteristicamente vermelhas e em locais expostos à luz (face, colo, braços), as articulações, com dores e inchaço, e órgãos internos como rins, sistema respiratório, coração ou sistema nervoso. “A doença é muito variável em sua apresentação clínica, desde casos leves, com poucas lesões, até casos mais graves, com insuficiência renal ou coma”, explica o especialista.

Diagnóstico

Como o lúpus é uma doença que afeta várias partes do corpo, o diagnóstico também se apresenta como um desafio. O reumatologista explica que existem manifestações mais típicas como lesões de pele ou dos rins, mas podem existir sinais e sintomas inespecíficos como febre sem causa aparente ou sintomas neurológicos. “Não existem exames que sejam por si só absolutos. Então, o diagnóstico se dá pela avaliação clínica de diferentes sinais e sintomas e sua combinação com vários achados em exames de laboratório, imagem e, por vezes, biópsia. O desafio se dá na suspeita clínica em casos de apresentação muito heterogênea e diferentes exames, solicitados de acordo com as especificidades de cada caso”, detalha Bóris Cruz.

De acordo com o médico, houve muitos avanços nos últimos anos tanto em relação ao diagnóstico quanto ao tratamento da doença. As melhorias estão relacionadas ao melhor entendimento dos mecanismos da doença e ao aperfeiçoamento na interpretação dos exames. Foram aprimoradas estratégias para o diagnóstico precoce e houve ajustes nas diretrizes do tratamento para controle mais rápido da doença e prevenção de lesões irreversíveis ou efeitos colaterais. “Com diagnóstico precoce e melhores diretrizes para o tratamento, buscamos hoje o que chamamos ‘remissão’, o que seria o controle da inflamação da doença, com melhora dos sintomas e prevenção de progressão das lesões outrora irreversíveis, como a insuficiência renal” afirma o médico.

Tratamento

O tratamento do lúpus depende do tipo de manifestação apresentada por cada paciente devendo, por isso, ser individualizado. O objetivo é permitir o controle da atividade da doença, minimizar os efeitos adversos dos medicamentos e proporcionar uma boa qualidade de vida aos pacientes.

A Portaria n°100, de 7 de fevereiro de 2013, do Ministério da Saúde, indica a talidomida como alternativa em alguns casos de lúpus discoide – uma forma mais intensa de inflamação da pele, que pode não responder a outros tratamentos. A farmacêutica Paula Lana de Miranda Drummond, da Divisão de Desenvolvimento de Medicamentos da Fundação Ezequiel Dias (Funed), explica que a talidomida é um medicamento imunomodulador (que age no sistema imunológico), com atividade anti-inflamatória e antiangiogênica (que reduz a formação de novos vasos sanguíneos), mas seu mecanismo de ação não é completamente entendido ainda. “Sendo o lúpus uma doença autoimune, caracterizada pela inflamação de diversos órgãos e tecidos, alguns estudos demonstram benefícios no uso de talidomida, em pacientes com manifestações dermatológicas que não apresentem resposta a tratamentos convencionais”, explica Paula.

A farmacêutica frisa a importância de se seguir todos os cuidados exigidos na RDC 11/2011 (atualmente em consulta pública – CP 1.030/2021), principalmente com relação a se evitar a teratogenicidade, ou seja, causar algum dano ao embrião ou feto durante a gravidez de paciente que por ventura possa usar o medicamento. “As mulheres em idade fértil devem ter a gravidez descartada mensalmente para receberem a prescrição de talidomida, por meio de exame de beta-HCG e utilizar dois métodos contraceptivos. Os homens devem usar preservativo durante todo o tratamento e por mais 30 dias após sua interrupção”, acrescenta Paula.

Alguns estudos mostram os benefícios do uso de talidomida em pacientes, que não respondem aos tratamentos convencionais, com relação à remissão da doença e melhora do quadro clínico. “Apesar da ocorrência de efeitos adversos associados ao uso de talidomida, com manejo da dose e após a suspensão do tratamento, a maioria dos sintomas desses pacientes desaparece. Mas vale ressaltar que são escassos os estudos que avaliem a qualidade de vida de pacientes com lúpus em uso de talidomida”, esclarece a farmacêutica.

Paula lembra, ainda, que todos os pacientes devem ser orientados pelo médico e farmacêutico quanto aos riscos do tratamento, assim como a possibilidade de ocorrência de eventos adversos importantes, como neuropatia periférica (dormência, formigamento, fraqueza e/ou dor causada por danos nos nervos, normalmente nas mãos e nos pés) e trombose. O paciente também deve estar ciente de que o medicamento é de uso pessoal e que existe a necessidade de devolução dos comprimidos, caso o tratamento seja suspenso.

Contribuição da Funed

Atualmente, a Funed é a única produtora da Talidomida no país, sendo este um medicamento estratégico importante no contexto da saúde pública, usado para atender aos programas de hanseníase, lúpus e HIV/Aids, do Ministério da Saúde. O medicamento é produzido na Fundação desde 1970 e é distribuído exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para as Unidades Públicas Dispensadoras devidamente credenciadas.